sexta-feira, 29 de junho de 2007
No surf, acima de qualquer característica, é preciso ser paciente. Qualquer tipo de surf, no competitivo e mesmo no surf livre. Não são raros os momentos em que é preciso passar dias seguidos sem se poder surfar. Por vezes os factores conjugam-se: partiu-se a nossa única prancha; para depois entrar um tempo desgraçado com uma ondulação enorme e desordenada; para depois parar o vento e não haver ondas; para depois ficarmos atolados de trabalho; entra a época de frequências; o patrão arranjou um novo contrato… ou um empecilho do género: um familiar importante faz a sua festa de anos no fim de semana desocupado, e a festa é em Trás os Montes! (Guarda para ser mais específico, no meu caso…) As mulheres e as namoradas são normalmente quem leva com a carga de stress extra: só para no momento em que podíamos estar com elas, sairmos de casa quase em fuga, agarrados à prancha com um sorriso de orelha a orelha, sem nos apercebermos muito bem que o tempo todo que não tivemos para fazer surf também não tivemos para elas. No meu caso sou sortudo: ela gosta que eu faça surf, até gosta de ver! O que muitas vezes me dá a bela da oportunidade de nem lhe dar hipóteses de fazer planos – Olha! Queres ir ver-me fazer surf amanhã! Vai ser o único dia bom no resto da semana toda! Depois já não podes ver mais! – É capcioso, sim, mas o que é querem? Ela gosta de mim à mesma!Depois, dentro do mar, a paciência é uma característica que choca com vários factores. O ideal é não haver pressão competitiva, estarem condições óptimas e não haver mais nenhum surfista a disputar as nossas ondas. Isso é possível? Sim, se bem me lembro já me aconteceu aí umas… três vezes! Na realidade já foram mais, mas para quem vive em Lisboa também cresce mais um factor, gasolina (ao preço do caviar), quanto mais longe de Lisboa, menos gente apanhamos, para sul melhor ainda, para norte nem por isso, lembra as aulas de geografia dos 10º anos, o litoral e a densidade populacional. Na realidade, a comunidade surfista é bastante mobilizada, mas ainda se encontram sítios bons sem ninguém. É difícil é conjugar o tempo que temos com o tempo que há, com a capacidade de deslocação, e eu sou um tipo com tempo! Mas normalmente o surf é feito com muita gente à volta – para mim, cinco pessoas que eu não conheça numa onda já é muita gente! A onda vem e é preciso ter paciência para que aqueles que estão mais perto do pico apanhem a onda. Assim passamos nós para o pico para depois esperar que como sempre, o esperto mor que está a voltar não nos dê a volta ao pico antes de vir a nossa onda, porque senão temos de andar a sair de posição só para ficarmos com a onda, e nada nos diz que alguém não nos vá dropinar! Aquelas coisas do surf!Estou aqui a escrever isto, num dia em que não há competição no Havaí, por isso vai ficar adiada uma decisão importante, para nós fãs do surf (até porque a decisão final está em Pipe): se o Tiago vai ou não para o WCT, se o Justin já com uma prestação bem boa (e cheia de paciência) vai ajudar. Estamos todos ansiosos, leitores e escritores no Ondas, fazemos contas, as nossas rezas, macumbas, cumprimos pequenas superstições e até se fazem promessas, e ao encontramo-nos aqui com vidas diferentes, visões diferentes do mundo e do surf, conseguimos encontrar pontos em comum para além da evidente paixão pelo desporto, que nos ligam, que nos fazem ficar ansiosos, da mesma maneiras pelas mesmas razões… como uma comunidade criada em ansiedade
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